terça-feira, 3 de agosto de 2010

É seguro para quem?

Uma manchete da Folha Online de sentido dúbio foi publicada no início desta semana. Dizia a chamada que "Emirados Árabes devem bloquear serviços de BlackBerry por razões de segurança". Um dos possíveis sentidos do texto pode ter deixado preocupados os usuários do charmoso smartphone. "Então meu celular não é seguro?", podem ter duvidado por uns instantes, até que lessem a matéria na íntegra.

Na verdade, a falta de segurança apontada na matéria decorre de sua aparentemente elevada segurança! Do ponto de vista das autoridades locais, impotentes para "grampear" as conexões criptografadas do Blackberry, o disposivo é um problema de segurança.

Não pretendo retomar aqui a questão, que já abordei noutros textos, sobre a inutilidade de se tentar proibir o uso de criptografia a pretexto de combater o crime ou o terrorismo. Há dúzias de textos outros falando sobre isso, tema a que Schneier retorna mais uma vez nesta semana, em seu blog, lembrando que há muitas outras maneiras pelas quais pessoas que moram ou transitem pelos Emirados Árabes podem criptografar sua comunicação.

O motivo deste post, diante do gancho deixado pela citada manchete, é falar dessa às vezes mal compreendida noção de "segurança". É comum perguntar-se se algo "é seguro", esperando uma resposta binária: sim ou não. Segurança assim, em termos absolutos, não existe. Segurança é um dado relativo: pode-se ter segurança contra algo, ou contra alguém.

E como um outro dado relativo, que a citada notícia bem ilustra, a segurança é para quem?

Recebi há poucos meses um novo cartão de crédito "com chip", como dizem, que só efetua o pagamento se colocarmos nossa senha naquelas conhecidas maquininhas. Dizem que é mais seguro... sim... mas... para quem?

Não me sinto nem um pouco seguro em digitar essa senha na frente de uma verdadeira platéia, quando me vejo fazendo isso no caixa de uma grande loja, supermercado ou em um restaurante movimentado. E é impossível evitar. Para mim, assinar a notinha parecia ser certamente mais seguro...

É seguro para quem?

São Luiz do Paraitinga e o novo fórum digital


Recebi hoje na OAB o colega José Elsio Ribeiro, que juntamente com o Conselheiro Luis Eduardo de Moura, de Taubaté, vieram trazer notícias da bela cidade histórica de São Luiz do Paraitinga.

Estive em SL do Paraitinga no começo do ano, representando a OABSP, logo após a enchente que colocou sob as águas praticamente toda a cidade. Comigo esteve o amigo Sergei Cobra Arbex, Diretor da CAASP. Tivemos a oportunidade de verificar a situação dramática da população, e em especial dos colegas advogados, pois não apenas o Forum, mas muitos dos escritórios de advocacia estavam quase que totalmente submersos.

Mas a força da cidade está conseguindo superar os problemas da enchente. O Forum já está em funcionamento, assim como boa parte dos estabelecimentos. Os colegas começam a voltar ao trabalho. Que notícia excelente!

Com a enchente, os autos ficaram sob as águas. E as cópias guardadas pelos advogados também, já que seus escritórios ficaram igualmente submersos.

Em um trabalho pioneiro, o TJSP buscou recuperar os processos através da digitalização. A notícia que tivemos hoje é que todos os autos foram digitalizados. A tragédia trouxe a possibilidade do Forum de SL Paraitinga ser o primeiro a passar do papel para o processo totalmente digital.

Conheci pessoalmente as experiências dos foruns digitais do TJSP, da Nossa Senhora do Ó, na Capital, e o de Ouroeste, Comarca de Fernandópolis, e que fica a 550 km de São Paulo. Tratam-se de foruns novos, que já começaram no ambiente digital.

São Luiz do Paraitinga, entretanto, será o primeiro Forum que se transformará de tradicional, com autos em papel, para o modelo digital. Esperemos que dê certo, para o bem dos colegas e dos jurisdicionados de SLParaitinga, mas também para todo o Estado, que poderá se aproveitar da experiência e repercutí-la em outros fóruns.

De qualquer forma, estaremos acompanhando de perto essa situação, e em breve estaremos promovendo cursos aos colegas de São Luiz do Paraitinga, para que possam militar no ambiente digital.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Eleições na Holanda: com lápis e papel

Ainda não esgotei tudo o que gostaria de dizer sobre a urna eletrônica nacional. Ainda retorno ao assunto. Por enquanto, vale replicar a notícia mencionada no título. Pois é, enquanto os brasileiros são levados a crer que o TSE é o campeão mundial da tecnologia eleitoral, a Holanda, segundo a notícia, voltou "a votar a lápis porque os computadores não garantiam a privacidade dos eleitores".

A Holanda, por certo, não é um país sem tecnologia, ou que não conheça a tecnologia, ou que não tenha recursos para financiá-la. O problema com eleições totalmente eletrônicas é conceitual: em um ambiente em que a transparência deva ser total, é impossível fazer uma votação totalmente eletrônica, auditável segundo padrões democráticos (o que é diferente de auditar um sistema privado) e que ao mesmo tempo assegure a privacidade e o sigilo do voto.

Ninguém conseguiu fazer isso! Nem o Brasil. Nas grandes democracias - e a Holanda é um exemplo delas - o maior nível cultural da população lhe permite entender o tamanho da encrenca, a sociedade civil pressiona e é ouvida (que inveja!), o poder político tem mais responsabilidade, enfim, há um quadro bem diferente do deste país tropical, de modo que as eleições 100% eletrônicas não emplacam nesses lugares. E a falta desse contexto todo é o que permitiu que emplacassem por estas bandas...

Se temos urna eletrônica, não é porque somos mais avançados tecnologicamente, mas porque somos mais atrasados social e politicamente!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Entrevista sobre informatização do processo

Gravei entrevista para a TV Cidadania, da OAB-SP, sobre Informatização do Processo. Ao que me consta, vai ao ar nesta próxima terça-feira, 13/7 (amanhã), às 21:30hs, na TV Aberta, e, depois disso, também deve ser exibida na Rede Vida e na TV Justiça, conforme grade de programação abaixo:

TV Aberta
(Canal 9 Net/ Canal 72 TVA)
Terça-feira, às 21h30

Rede Vida de Televisão
(Canal 34 UHF, Canal 26 NET, canal 45 TVA, canal 27 SKY, 221 Directv, e 03 Tecsat)
Quarta-feira , às 21 horas.

TV Justiça
(NET - 06, TVA - 60, SKY 29, Directv – 209)
Inédito : sábado – 10h / Reprises : quarta

O programa também entrevistou o colega e amigo Alexandre Atheniense, sobre esse mesmo tema.

Até lá!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Blogs e a eleição

Em post de junho do ano passado, critiquei a proposta de se "regular" a propaganda eleitoral por meio da Internet. Regular demasiadamente, em qualquer ramo do Direito, costuma produzir o efeito inverso de gerar descumprimento da norma. Regras demais, em eleições, parecem produzir ainda um outro efeito perverso: judicializam demais o debate, que deveria ser público, transparente, transferindo para o juiz uma competência que pertence ao povo: o julgamento de quem deve ocupar as magistraturas eletivas do país.

Ontem, o Ministério Público Eleitoral pediu ao TSE a retirada do ar de um blog favorável a José Serra. Hoje noticiou-se que pediram o mesmo para um blog favorável a Dilma. Talvez amanhã requeiram a derrubada de mais algum, de apoio a Marina...

Minha primeira objeção a tal tipo de "regulação" é o cerceamento da liberdade de expressão. Como dito no post do ano passado, o equilíbrio de armas entre os candidatos, na Internet, é estabelecido pelo próprio formato da rede. A Internet é poderosa como meio de comunicação, mas não produz o mesmo bombardeio sobre o telespectador, que involuntariamente assiste aos reclames publicitários no aguardo da continuidade do programa a que assiste. Na Internet, só visita os sites e os lê quem explicitamente quis fazê-lo. Se um eleitor quer ler o absurdo que for, não me parece que possamos permitir que juízes, outros cidadãos como nós, possam ter o poder de impedi-lo. Não se pode tutelar o eleitor, ou supor que ele seja nada mais do que um imbecil, incapaz de escolher o que quer ler. Assim, não há porque regular ou julgar tais manifestações.

Além disso, é inútil! A campanha mal começou e já se pediu para retirar do ar dois blogs. Quantos mais existem, defendendo candidatos, pelo país afora? Que prejuízo causam para a disputa ou para a Democracia?

Está na hora do país parar de ter medo do eleitor, de palavras e de opiniões livremente expressadas. O debate político só terá a ganhar!

A propósito, até o momento, os dois blogs estão no ar. O pró-Serra e o pró-Dilma. E ambos têm um novo post, de hoje, criticando duramente a iniciativa tomada pelo MP Eleitoral. Não se pode negar uma coisa: conseguiu-se colocar os partidários dos dois oponente do mesmo lado!

terça-feira, 18 de maio de 2010

O novo CPC e a informatização do processo

A notícia publicada ontem no Valor Econômico já ganhou suficiente destaque e não deve ser uma novidade para o leitor deste blog. Há "clippings" dela por toda a Internet. Já recebi uns três, só hoje... Segundo a manchete, auto-explicativa, "Processo eletrônico pode deixar metade dos servidores sem função" (leia aqui, ou aqui).

Não há o que comentar. É o óbvio! O Poder Judiciário deve ser uma das últimas instituições do planeta, públicas ou privadas, que emprega elevado contingente de pessoas para as tarefas artesanais de furar, grampear, carimbar e juntar papéis. Eu só não diria que os funcionários ficarão "sem função". Ficarão sem essas funções.

Necessidade existe e existirá de trabalho inteligente de apoio ao trâmite processual e aos julgamentos, ou de auxílio no desenvolvimento das audiências ou na tentativa de conciliação, ou para o cumprimento ou execução das muitas decisões que não podem ser efetivadas eletronicamente (citação e intimação pessoais, busca e apreensão de pessoas ou coisas, penhora de bens móveis, despejos, para citar alguns exemplos). O problema reside em saber se o Judiciário conseguirá, de modo ágil e eficiente, migrar os que hoje manuseiam papéis para essas tarefas, que hoje também representam grandes gargalos para o desenvolvimento do processo e entrega da prestação jurisdicional.

Mas a questão que me proponho a analisar é outra. Funcionários ficarão sem (essas) funções porque a informatização tende a modificar o trâmite do processo tal como o conhecemos hoje. E, arrisco dizer, pode modificar um bom tanto da sua essência e não apenas a sua forma.

Paralelamente, assistimos aos trabalhos iniciais da Comissão de Reforma do CPC, recém criada por determinação do Senado Federal. Tenho cá minhas dúvidas sobre a conveniência da elaboração de um novo CPC; não estou certo de que tal empreitada produzirá aquele principal resultado que a sociedade mais necessita neste momento: que as lides sejam julgadas em tempo razoável. Depois de anos de reformas processuais prometendo efetividade e só se observando mais morosidade, parece ter ficado claro que o problema não está na lei.

Mas, para ficarmos restritos à temática abordada neste blog, faço-lhes as seguintes perguntas, para reflexão:

Se, por conta da informatização, o Judiciário e o Processo estão passando por formidáveis alterações - cujos resultados finais não são ainda completamente conhecidos - será conveniente criar um novo Código agora? Ou seria melhor esperar a finalização e os resultados dessa informatização, quando, então, uma nova legislação já poderia comtemplar a nova realidade automatizada?

Será que o novo CPC já não nascerá velho, talvez até tornando-se obsoleto nos próximos cinco anos, quando todos os processos estiverem completamente informatizados? E será necessário revisá-lo amplamente, diante da nova realidade?

sábado, 8 de maio de 2010

Críticas à votação totalmente eletrônica - II

Prosseguindo nesta série de considerações sobre votações totalmente eletrônicas, tentarei resumir neste pequeno texto as opiniões da Dra. Rebecca Mercuri. Como mencionei no texto anterior, Bruce Schneier afirma que "o" web site sobre votações eletrônicas é justamente o dela (aqui). Em breve apresentação, ela é PhD pela Universidade da Pensilvânia e considerada uma das maiores especialistas em votações por computador. Sua tese, "Electronic Vote Tabulation: checks and balances", analisa amplamente a questão. Alguns outros textos seus, mais curtos e disponíveis na web, cuja leitura é recomendada, são:

Paper v. Electronic Voting Records – An Assessment

Rebecca Mercuri's Statement on Electronic Voting


Neste último, curto e direto, a Dra. Mercuri resume as razões pelas quais, como dito desde logo no primeiro parágrafo, ela é "firmemente contrária ao uso de qualquer sistema totalmente eletrônico ou baseado na Internet para uso em votações eletrônicas anônimas e aplicações de totalização dos votos" (grifei).

Um detalhe que merece destaque nessa frase: "votações anônimas", ou, noutras palavras, o voto secreto. Para quem pensa que a tecnologia pode tudo, o grande complicador para a realização de eleições totalmente eletrônicas é conciliar a auditabilidade com o sigilo do voto. Registros eletrônicos, por imateriais, são amplamente manipuláveis. Essa é, aliás, a dificuldade em aceitá-los como prova em um processo judicial (v. a esse respeito, meu já decenal artigo sobre "O documento eletrônico como meio de prova"). A confiabilidade de registros eletrônicos é fortemente dependente da possibilidade de rastreá-los e identificá-los. Sem isso, são frágeis como palavras escritas na areia. Mas como o sigilo do voto é um valor fundamental do regime democrático, caímos então em um problema intratável.

Voltando à Dra. Rebecca Mercuri, destaco aqui alguns dos seus argumentos que considero mais significativos, extraídos da relação apresentada no segundo texto supra citado. Começando pelo mais simples e explícito:

"Sistemas totalmente eletrônicos não proporcionam nenhum meio pelo qual o eleitor possa realmente verificar se o voto dado corresponde àquele que foi gravado, transmitido ou totalizado. Qualquer programador pode escrever um código que exibe uma coisa no vídeo, grava outra, e imprime ainda um outro resultado. Não existe nenhum jeito conhecido de assegurar que isso não está acontecendo dentro de um sistema de votação" (grifei).

Outra justificativa bastante significativa:

"A votação e tabulação eletrônicas transformam em meramente procedimentais as atividades desempenhadas pelos que trabalham na eleição, impugnantes e autoridades eleitorais, e removem qualquer oportunidade de realização de conferências bilaterais. Qualquer processo de eleição computadorizada é, pois, confiada ao pequeno grupo de indivíduos que programam, constroem e mantêm as máquinas de votação" (grifei).

Ou, ainda:

"Sistemas de votação eletrônicos sem impressão individual para exame pelo eleitor não proporcionam uma trilha auditável independente (apesar do fabricante afirmar o contrário). Como todos sistemas de votação (especialmente os eletrônicos) são passíveis de erro, a capacidade de também realizar uma contagem manual das cédulas é essencial".

Quem acredita que a impressão do voto, como defendida pelo relatório do CMInd e por muitos outros pelo mundo afora, é um retorno ao passado, na verdade vive num futuro ilusório que nunca chegou. A capacidade de realizar de modo totalmente eletrônico uma eleição secreta e democraticamente auditável ainda não foi descoberta (se é que será, pois se trata de um paradoxo conceitual) por ninguém. E, sinto dizer, nem pelos brasileiros, nem pelo TSE. Nossas eleições, como apontado no citado relatório, não são livre e independentemente auditáveis!

PS: Traduções deste autor-blogueiro. O texto original é encontrado nos hyperlinks indicados.

domingo, 18 de abril de 2010

Críticas à votação totalmente eletrônica - I

O relatório CMInd tem repercutido de maneira bastante positiva nos últimos dias. O Presidente do Conselho Federal da OAB, demonstrando ter suas dúvidas e preocupações com o sistema eleitoral brasileiro, pronunciou frase que merece ser amplamente repercutida: "não é o Direito que tem que se adequar à informatização, mas esta é que tem que se adequar ao Direito". Irretocável! O acerto dessa proposição vai além das questões eleitorais. Silvio Meira também noticiou a publicação do relatório em seu blog, prometendo que ainda vai voltar ao assunto (sobre o qual, aliás, já se manifestou muitas vezes de forma bastante lúcida e ao mesmo tempo crítica). Aguardemos para ver se a mobilização aumenta!

Por ora, prossigo aqui no Direito em Bits apresentando algumas críticas que são opostas a esse nosso modelo de votação eletrônica. Não atuo na área eleitoral e até vir a participar das Comissões de Informática da OAB-SP o único contato que havia tido com nossas urnas eletrônicas fora apenas como eleitor. Aproximei-me do tema devido a dois fatores.

De um lado, estudando segurança da informação, criptografia, assinaturas digitais, prova por meios eletrônicos - assuntos mais próximos de minha atuação acadêmica e profissional, sobre os quais já publiquei alguns escritos - inevitavelmente cruzei com textos sobre votações eletrônicas que chamaram desde logo a minha atenção como cidadão. São, de fato, temáticas cujos problemas estão intimamente interrelacionados: votação eletrônica e provas por meio eletrônico. Em ambos nos deparamos com a credibilidade de sistemas informáticos como meio de demonstrar a verdade.

De outro lado, em 2001, quando do escândalo da violação do painel eletrônico de votação do Senado, eu já era Vice-Presidente da Comissão de Informática da OAB-SP, então presidida pelo meu colega de blog, Marcos da Costa, e resolvemos trazer a questão para observação da comissão; assim, realizamos alguns debates sobre o tema, nos quais ouvimos o perito que investigou a violação do painel, técnicos do TSE e críticos da urna eletrônica. Na esteira dos acontecimentos, acabei indicado pela OAB-SP para acompanhar as votações paralelas (uma espécie de "auditoria" promovida pela própria Justiça Eleitoral) em SP e, depois, pelo Conselho Federal da OAB, para fiscalizar o desenvolvimento e instalação dos programas, junto ao TSE. Aos poucos, pretendo comentar um pouco dessas experiências todas aqui no blog, pois delas extraí minhas conclusões pessoais sobre nosso sistema eleitoral. E acredito, portanto, que devam servir para que os leitores ponderem e tirem suas próprias conclusões.

Começo essa sequência de textos trazendo à baila algumas das manifestações de Bruce Schneier. Comecei a ler seus textos sobre segurança da informação ainda no final da década de 90. Para quem não o conhece, Schneier é um dos mais respeitados "gurus" na área de segurança da informação. Reúne formação acadêmica com experiência profissional no mundo "real"; é autor de livros e de sólidos algoritmos criptográficos. Ao que me lembre, foi em Schneier que me deparei com as primeiras análises críticas aos sistemas eleitorais informatizados, em dois pequenos "posts" que ele publicou no "Crypto-Gram", seu boletim mensal sobre segurança da informação, o primeiro em dezembro de 2000 , motivado pelos problemas ocorridos na Flórida durante a eleição presidencial norte-americana, e o outro em fevereiro de 2001.

No seu primeiro texto, de 2000, "Voting and Technology", Schneier afirma que a meta de um sistema de votação é fazer com que a intenção do eleitor resulte em um voto finalmente somado ao candidato por ele escolhido. Entretanto, entre o voto manifestado pelo eleitor e o resultado final da eleição ocorrem algumas etapas de "tradução" ou transposição dessa vontade e, segundo ele, os problemas ocorridos na Flórida foram fundamentalmente provocados pelas muitas etapas em que se fazia necessária essa "tradução", pois a cada etapa existem novas chances de ocorrerem erros:

"O sistema de Palm Beach tinha muitas etapas de tradução: eleitor para a cédula, para o cartão perfurado, para o leitor de cartões, para o tabulador de votos e para o totalizador central".

Reconhecendo que o sistema da Flórida era antiquado (o que parece óbvio), Schneier afirma, porém, que "tecnologias mais novas não fariam os problemas desaparecer magicamente". Ao contrário, "poderiam até piorar as coisas, acrescentando mais etapas de tradução entre os eleitores e os contadores de votos e evitando recontagens".

E prossegue:

"Eis minha principal preocupação acerca da votação por computador: não há nenhuma cédula em papel para recorrer de volta. Máquinas de votação computadorizada, tenham teclado e monitor ou uma tela sensível ao toque como as ATMs, podem facilmente piorar as coisas. Você tem que confiar no computador para registrar os votos corretamente, entabular os votos corretamente e manter registros precisos. Você não pode voltar às cédulas de papel e tentar descobrir o que o eleitor queria fazer. E computadores são falíveis; alguns dos computadores de votação nesta eleição falharam misteriosa e irrecuperavelmente".

E o que ele sugere?

"O sistema ideal de votação minimizaria o número de etapas de tradução e faria as remanescentes o mais simples possível. Minha sugestão é um computador de votação parecido com uma ATM, mas que também imprima uma cédula em papel. O eleitor confere a cédula para confirmação e então a deposita em uma urna lacrada. As cédulas em papel são os votos 'oficiais' e podem ser usados para recontagem e o computador proporciona uma rápida contagem inicial".

Entenderam? Schneier não é exatamente alguém que se possa dizer "avesso à tecnologia", certo? Nem que "não entende nada de tecnologia"...

Schneier voltou a escrever muitas outras vezes sobre o uso de computadores nas eleições e o voto remoto pela Internet. Vale a leitura. Uma busca no Crypto-Gram resultará em vários outros textos seus sobre o assunto. Talvez eu ainda volte a trazer a este blog outras citações suas.

Ao final deste seu texto publicado em 2000 Schneier afirmou que "O" web site sobre votações eletrônicas é esse aqui, mantido pela doutora Rebecca Mercuri. Li vários de seus textos e também a tenho como importante referência sobre o tema.

PS: Traduções deste autor-blogueiro. O texto original está no hyperlink indicado.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Urna eletrônica: o relatório CMInd

Nesta semana, foi divulgado um relatório apontando críticas ao sistema eletrônico de votação brasileiro. Sou um dos que assinam o relatório, integrando o comitê, informalmente criado, que se auto-intitulou Comitê Multidisciplinar Independente, ou CMInd. Trata-se, de fato, de um comitê multidisciplinar, formado por profissionais de diferentes formações e experiências, que se conheceram ao longo dos últimos anos em torno das discussões sobre a urna eletrônica brasileira, e que espontaneamente se reuniram para produzir esse documento. E independente: cada um fala por si, com suas próprias convicções, não expressando nem representando a opinião de qualquer entidade, pública ou privada. A íntegra do relatório (com 105 páginas), está disponível aqui.

Possivelmente, virão os ataques de sempre: "Dinossauros!", "Não entendem nada de tecnologia!", "Querem trazer a fraude de volta!" e por aí vai... Esse costuma ser o nível do argumento que se apresenta contra quem discorda de alguma coisa neste país, especialmente utilizado quando o assunto são as duvidosas opções de uso da tecnologia adotadas pelos entes públicos.

Embora ainda longe de ser simples, a cada dia que passa a tecnologia mais e mais adentra a vida das pessoas, tornando mais fácil desenvolver publicamente um argumento racional e profundo sobre tais questões. Quem sabe agora a sociedade brasileira esteja mais madura para compreender que o modelo de votação eletrônico aqui adotado é inseguro e antidemocrático, e que este relatório possa contribuir para tal reflexão mais do que contribuiu, anos atrás, o chamado "Manifesto dos Professores", de 2003.

Em qualquer país minimamente sério, pensava eu àquele tempo, o Manifesto de 2003 já teria sido um escândalo. Foi assinado por oito professores universitários - alguns Titulares - de algumas das mais respeitadas Universidades do Brasil na área de Tecnologia, alertando sobre a "insegurança do sistema eleitoral informatizado" nacional. Fosse um país de primeiro mundo - o que, em termos civilizatórios e não apenas de crescimento do PIB, ainda estamos muito longe de ser - imagino que tal manifesto estaria nas primeiras páginas dos jornais, ou no horário nobre dos noticiários televisivos. Mal lhe deram bola, nem os agentes públicos, nem a imprensa.

O problema é que a imagem da urna eletrônica foi tão meticulosamente construída neste país que criticá-la é comparável à traição, a um ato lesa-pátria, ou a torcer para a Argentina ganhar a Copa. Incutiu-se no brasileiro a bravata ufanista de que a urna simboliza aquele sonho perdido do Brasil Grande dos 70's, de que "este é um país que vai prá frente, ou, ou, ou, ou ou...". É verdade que usou-se até dinheiro público para fazer propaganda da própria urna - ao invés de transmitir informações úteis ao eleitor. Lembro-me bem, anos atrás, de uma publicidade oficial do TSE em que uma mocinha bonitinha aparecia em uma vinheta exclusivamente para dizer que a urna era "a grande vedete da eleição", ou coisa que o valha... e que era "admirada e utilizada" por diversos países do globo (propaganda inequivocamente enganosa: ou, então, enumerem-se os tais "países").

A realidade nua e crua é a seguinte: nenhuma democracia que conta utiliza ou admira esse nosso modelo de eleição totalmente eletrônica! Há dúzias de textos críticos bastante fundamentados, pelo mundo afora, a esse modelo de eleição totalmente eletrônica. É rarissimo, aliás, encontrar quem ao mesmo tempo o conheça e o defenda... além do corpo técnico do TSE. Pode tentar no Google! Há, definitivamente, uns 99% de brasileiros que amam a urna, sem, contudo, conhecê-la.

Os autores do relatório CMInd, no entanto, podem dizer que a conhecem. Ao menos, na medida máxima que se lhes foi permitido conhecê-la: seis dos dez membros do CMInd atuaram como fiscais do desenvolvimento, especificação e carregamento dos programas da urna eletrônica. Eu incluso, vez que fui indicado como fiscal da OAB junto ao TSE, para a eleição de 2004.

Bem... por hoje é só! O relatório foi divulgado para quem quiser ler. Tentarei escrever mais vezes aqui no blog nos próximos dias, para prosseguir com mais detalhes sobre o tema.

sábado, 10 de abril de 2010

Senhas, Serra e segurança informática

Segurança informática envolve algumas precauções às vezes nada perceptíveis pela média das pessoas que usam computador ou a Internet; mas, mesmo pelas que têm alguma consciência do problema e dos riscos, as recomendações soam como aquelas corriqueiras regras de boa saúde: não fumar, exercitar-se, dormir bem, ter hábitos alimentares saudáveis, comer frutas e verduras, etc e tal. Todos as conhecem, mas nem sempre as seguem.

Serra lançou sua candidatura à Presidência da República neste último sábado e, como foi divulgado na imprensa, teria dito em seu discurso as seguintes palavras:

"Porque tudo o que eu sou aprendi em duas escolas: a escola pública e a escola da vida pública. Aliás, e isto é um perigo dizer, com freqüência uso senhas de computador baseadas no nome de minhas professoras no curso primário. E toda vez que escrevo lembro da sua fisionomia, da sua voz, do seu esforço, e até das broncas, de um puxão de orelhas, quando eu fazia alguma bagunça."

Pois é... querendo falar bem da escola pública de sua infância, o ex-governador acabou entregando um segredo muito delicado. Sem dúvida, "é um perigo dizer" isso!

Certa vez, um profissional de segurança da informação me relatou que um cliente seu, empresário, usava como senha para sistemas informáticos a placa do automóvel de um familiar - não a dos filhos ou da esposa, talvez a de algum tio ou primo mais distante (mas nem tanto). Achava isso tão seguro, que não se intimidava em dizer a uns e outros que sua senha era assim escolhida: afinal, quem iria conhecer a chapa do carro dessa pessoa, se nem sequer a pessoa saberia quem é? Tolice. Um cracker, com essa informação, não precisaria nem ver o carro. Foi-lhe entregue um padrão: três letras (possivelmente maiúsculas) seguidas de quatro números, nesta ordem. Isso restringe o universo de senhas a experimentar em um "ataque de força bruta", isto é, aquele em que o atacante põe alguns computadores para experimentar todas as senhas possíveis. Meu interlocutor considerou que, com essa dica, quebrar uma senha dessas seria moleza. Notem que estamos falando de um universo de 175 milhões de combinações possíveis:

26^3 x 9999 = 175.742.424

Na verdade, talvez bem menos, se considerarmos que uma placa existente, de um carro mais ou menos recente, deve começar por umas cinco ou seis letras iniciais do alfabeto, já que os Detrans ainda nem de longe esgotaram todas as combinações possíveis. Aí, tentando inicialmente com essas seis letras, estaríamos falando de "apenas" 40 milhões de combinações para experimentar, isto é:

6 x 26^2 x 9999 = 40.555.944.

Isso pode parecer difícil de quebrar mas, acreditem, não o é para um computador potente nas mãos de gente experimentada. Para comparar, vamos brevemente analisar aqui qual o grau de segurança daquela "boa receita de saúde" que muitos já ouviram dizer e mesmo assim não a seguem. Recomenda-se usar como senha de 6 a 8 caracteres aleatórios, mesclando letras minúsculas (são 26), maiúsculas (outras 26), algarismos (mais 10) e caracteres não alfanuméricos (digamos, uns 20...): são, assim, 82 possibilidades em cada uma das posições, o que equivale a 304 bilhões de combinações com seis caracteres, ou incríveis 2 quatrilhões, com oito caracteres:

82^6 = 304.006.671.424

82^8 = 2.044.140.858.654.976

Esse é um universo considerado seguro pelos especialistas...

Algo me diz que a "dica" dada pelo ex-governador é ainda mais útil a um cracker, do que a que foi dada pelo empresário da estória acima. Quantos nomes de mulher existem na língua portuguesa? Eu não sei dizer... mas quem lida com segurança da informação - para protegê-la ou quebrá-la - deve não apenas saber estimar aproximadamente esse número, como possivelmente tem um "dicionário" de nomes ao alcance dos dedos, quero dizer, do mouse. Mas arrisco dizer que deve ser de uma grandeza bem inferior do que as já fracas 40 milhões de possibilidades.

Mas a coisa foi ainda pior: Serra deve ter tido apenas quatro professoras primárias, salvo algum fato excepcional, como morte ou aposentadoria de algumas delas durante o ano letivo, o que provavelmente não levaria esse número para além de cinco ou seis. E não são nomes aleatórios: são nomes de pessoas reais que certamente constam dos registros escolares e da memória de outros alunos contemporâneos a ele. As senhas são "baseadas" em seus nomes, foi dito, o que permite supor que alguns caracteres devem ter sido inseridos ou alterados. Mesmo assim, dada esta dica inicial, a dificuldade de lançar um bem sucedido ataque de força bruta diminuiu... brutalmente!

Poucos se dariam ao trabalho de tentar "adivinhar" a senha de uma pessoa qualquer do povo que lhes desse tais dicas, ou de escarafunchar velhos registros escolares para encontrar os nomes de suas quatro professoras primárias. Serra, entretanto, é candidato ao mais alto cargo da República e, se eleito, virá a ocupá-lo. Suas senhas podem interessar a um bocado de gente, que não mediria esforços para obtê-las...

Enfim, usar variantes dos nomes de suas antigas professoras primárias até podia ser um método razoável para escolha de senhas. Afinal, pode ser mais seguro usar uma senha um pouco mais fácil que possa ser memorizada do que uma mais difícil que de tão aleatória precise ser anotada... Só que o critério não poderia ter sido anunciado publicamente! Acabou! Se estivesse em seu lugar, eu trocaria imediatamente todas as suas senhas e passaria a usar outros critérios para facilitar a sua memorização. Este não presta mais. De agora em diante, o nome de suas antigas professoras deve servir apenas para ocupar um lugar na mente e no coração.

PS: Textos como este, apontando falhas de segurança, costumam ser criticados por divulgar o problema. Não me parece o caso, aqui. Seu discurso foi público, amplamente divulgado na grande imprensa online e já deve ter sido fartamente analisado. Se eu, que sou "apenas um advogado", notei a gafe cometida com sua própria segurança, quem estivesse interessado numa invasão dos sistemas do ex-governador a essa hora já está estaria com as mãos na massa, e certamente não precisou ler este meu texto para localizar o alvo. A você que o está lendo agora, espero que tenha servido para que reflita um pouco mais sobre como protege as suas próprias senhas!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Informatização do processo: uma notícia boa e outra má.

Começo pela boa: o CNJ decidiu que não se pode deixar de receber petições em papel! É boa porque é sensata e também porque é correta sob o prisma da legalidade, princípio tão maltratado neste país.

De fato, não há previsão legal alguma que autorize o fechamento do guichê para recebimento das petições em papel; e, claro, a possibilidade de "regulamentação" que a Lei 11.419/2006 "delega" ao Judiciário - sinto um certo cheiro de inconstitucionalidade nisso - certamente não o transforma em Poder Legislativo, para criar ou extinguir direitos e obrigações que não estejam em lei strictu sensu.

A decisão do Conselho decorreu de provocação feita por um advogado carioca - a notícia divulgada não diz o seu nome, mas o Colega merece meus efusivos aplausos! - que se insurgiu contra uma Portaria (Portaria!?) da Justiça Federal do Rio de Janeiro instituindo a obrigatoriedade do peticionamento por meio eletrônico. Cito um trecho mais da matéria:

"O advogado alegou que a exigência viola o princípio da legalidade, uma vez que a obrigatoriedade do peticionamento eletrônico não está contemplada na Lei 11.419/2006, que trata do processo eletrônico. De acordo com ele, a medida fere as garantias do livre exercício da profissão e de acesso à Justiça. O profissional também argumentou que o sistema eletrônico de peticionamento é falho, diante das dificuldades de acesso e navegação na internet em algumas localidades do estado; que o uso do meio eletrônico é facultativo nos demais órgãos do Poder Judiciário e que a exigência do peticionamento somente por meio eletrônico impõe ônus de aquisição de equipamentos e programas na versão exigida. "

Bem... é o que temos dito há anos. Assino embaixo!

Agora vamos para a má notícia: "Apagão" atrasa processos na Justiça Federal.

Dou um doce para quem adivinhar qual é a relação entre as duas notícias!

Sim, o atraso que vamos experimentar na Justiça Federal de São Paulo decorre de "apagão" do sistema informático, que, aliás, não será o primeiro ocorrido nesta Seção Judiciária. Segundo afirma a notícia, 200 mil processos estão inacessíveis em virtude do problema, decorrente de "uma sobrecarga no banco de dados", que só será corrigida em... abril!

Moral da história: que os gestores do PJ, ou senão o CNJ, ponham mesmo um freio no ritmo de informatização da Justiça; tudo o que não precisamos para a melhoria da prestação jurisdicional são as coisas feitas às pressas, sem orçamento suficiente, sem previsão de seu dimensionamento adequado para o futuro próximo, sem planos de contingência para o caso de as coisas darem errado (porque certamente um dia os sistemas informáticos irão falhar), ou sem uma discussão mais ampla com toda a comunidade jurídica que ponha sobre a mesa os benefícios, riscos e possíveis caminhos e soluções.

Há anos, a informatização do Judiciário - com boas e honrosas exceções, frise-se! - vem sendo feita de modo quase experimental, como se a preocupação maior mais fosse mostrar à sociedade que se está modernizando, do que efetivamente proporcionar a melhoria do serviço; e, por vezes, regras foram impostas até mesmo por gabinetes palacianos totalmente distantes da realidade forense.

O resultado disso aí está: paralisação precoce do sistema, por inoperante; baixa adesão dos advogados (e alguns arautos da modernidade não entendem o porquê!); animosidade entre a Advocacia e o Judiciário, quando ambas as classes deveriam estar de mãos dadas, em um esforço unido pela melhoria do funcionamento da Justiça em nosso país.

Que o CNJ pense na informatização da Justiça com mais serenidade, com consciência do orçamento que se tem e o mais longe possível dos holofotes. Justiça boa é a que funciona, e não a que parece moderna...

PS1: Antes que venha a crítica para me chamar de "avesso à tecnologia", "dinossauro", etc. (bem... já cansei de ouvir isso, mas só posso dar risada, pois tenho consciência suficiente do quanto conheço e do quanto me dou bem com a tecnologia...): esta mensagem não é contra a informatização do Judiciário; é a favor da informatização que funcione e que também respeite a Constituição, a Lei, as garantias processuais, as prerrogativas profissionais...

PS2: A propósito desta mensagem, uma informação de caráter pessoal: tomei um chá de ânimo, disciplinei meus horários e estou dando sequência nos meus antigos planos de postular a Livre-Docência. Se correr como o planejado, apresento a tese neste ano. Se, infelizmente, não correr, do ano que vem não passa! Dou outro doce para quem adivinhar o tema!!!

domingo, 17 de janeiro de 2010

Você deixa suas fotos na Internet?

Bem... a privacidade costuma ser um tema frequente aqui no blog, e já se falou dos riscos da auto-exposição. Para abrir o ano novo, narro um exemplo quase bem humorado (não fosse ele tão grave para o envolvido) do que pode acontecer com seus retratos publicados na web.

O FBI resolveu divulgar uma foto "atualizada" de Osama Bin Laden, mas como não dispõe de uma, e o saudita possivelmente não quis fornecê-la, especialistas em tratamento de imagens que trabalham para o órgão promoveram alterações em uma foto de 1998, tentando construir artificialmente como seria o seu visual atual, mais de uma década depois.

Consta que este tipo de trabalho costuma se basear em imagens de pessoas reais, disponíveis em um banco de dados do FBI; porém, não encontrando ali retratos que se encaixassem bem no semblante do perseguido, o especialista forense resolveu pegar uma imagem na web... e pegou a de um político espanhol. Vejam só que belo trabalho! Eis abaixo Osama em 1998, Osama, como estaria hoje segundo o FBI, e a "vítima" cujo rosto serviu de inspiração para o new look:



Viiixiii, pegaram o cabelo do homem e colocaram no Bin Laden!!! Seria cômico se não fosse trágico... E o espanhol diz que agora está com medo de viajar para os EUA!

Pois é... deixem suas fotos pela net para ver o que pode acontecer... não há limites para o que possa dar errado...

Mais detalhes no site da BBC.

Feliz 2010 a todos!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ventos, raios e chuvas...

Ficamos umas semanas sem escrever, mas este blog ainda não sofreu um apagão!

Aliás, nada como um apagão para percebermos o quanto as sociedades modernas são dependentes de energia elétrica! Nada mais funciona! Do meu rádio-relógio até hospitais inteiros.

Onde eu estava a luz ficou oscilando e, estranhamente, só parte da casa apagou (aparentemente, só uma das "fases" caiu, o que estava ligado na outra corrente permaneceu aceso) e assim ficou por alguns minutos... até que tudo se foi de vez. Curioso com o ocorrido, eu queria procurar por notícias, mas... como? Nada funciona. Meu celular estava com pouca carga para navegar na Internet, mas, felizmente, eu tenho em casa um bom "kit apagão", umas lanternas e um carregador movidos a energia animal... a nossa própria! Vejam que útil:





Na verdade, comprei essas coisas por outros motivos. Sempre que se precisa de uma lanterna, as pilhas já acabaram, não é? O carregador foi comprado para viagens, para manter celular ou GPS funcionando em situação de alguma necessidade... Sem querer, fiquei preparado para o apagão que der e vier. Uns dez minutos girando e meu celular recebeu um pouquinho de carga que me permitiu navegar pela Internet até o início da madrugada. Além do mais, isso ainda ajuda a manter a forma e a queimar umas calorias extras!

Mas acabei indo dormir, sem luz e sem explicação do que ocorreu... Pelo visto, se ficasse esperando uma explicação, já teria perdido uns 30kg só de "dar corda" no carregador do celular. Dois dias depois, chegou finalmente o esclarecimento oficial para o blecaute: foram "ventos, raios e chuvas"... Uma semana depois, resolveram perguntar para quem entende do riscado: uma vidente!

Bom, se é assim, com a chegada das chuvas do verão que se avizinha, este blog recomenda aos seus leitores que comprem um kit apagão no site chinês mais próximo... e façam isso logo antes que a luz se apague!

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Sobre o projeto de divórcio pela Internet

A CCJ do Senado aprovou projeto de lei, conforme recentemente divulgado no Consultor Jurídico, prevendo a apresentação do pedido de divórcio pela Internet. O que dizer de uma proposta como essa? Comecemos analisando o que exatamente diz o seu texto. O projeto acrescenta mais este artigo ao Código de Processo Civil:

Art. 1.124-B. A separação consensual e o divórcio consensual, não havendo filhos menores ou incapazes do casal, e observados os requisitos legais quanto aos prazos, poderão ser requeridos, ao juízo competente, por via eletrônica, conforme disposições da Lei nº 11.419, de 19 de dezembro de 2006, que dispõe sobre a informatização do processo judicial.

Parágrafo único. Da petição constarão as disposições relativas à descrição e partilha dos bens comuns, à pensão alimentícia e aos nomes, se tiverem sido alterados com o casamento.

O citado projeto apenas prevê que a separação ou o divórcio consensuais poderão ser "requeridos" por via eletrônica, algo que a Lei 11.419/06, citada no texto, já permite para todos os processos (desde, é claro, que a Justiça esteja aparelhada para tanto). A Lei 11.419, aliás, diz mais: diz que não só o requerimento, mas todos os atos processuais, e os próprios "autos", podem ser eletrônicos.

Não vejo que diferença faria converter em lei um projeto como esse... Note-se que, falando exclusivamente do requerimento, não há nada no texto proposto que sequer sugira que o casal não precisará comparecer a juízo para a audiência prevista no artigo 1.122, do CPC. Se a intenção dos seus propositores era suprimir a citada audiência, parece que o texto ficou lacunoso. Mas, por outro lado, se é para suprimir a audiência com o juiz, por que fazê-lo apenas quando o Divórcio é requerido pela Internet? Por que o casal, também sem filhos incapazes, que requeresse por petição escrita em papel não poderia, igualmente, ser dispensado de passar a tarde no Fórum, aguardando sua vez de ser ouvido pelo magistrado?

O parágrafo único também é redundante. Esses requisitos da petição inicial de separação consensual já se encontram no artigo 1.121, que se aplica a todos os pedidos, de casais com ou sem filhos menores (é claro que os que não têm filhos menores não precisam cumprir os incisos II e III).

Por outro lado, qual a razão para se criar uma regra assim, casuística, eis que se aplica a um único tipo de processo, e que ainda se mostra redundante diante de normas já existentes? Se a moda pegar, virão outros muitos projetos de lei, cada qual prevendo que também poderão ser requeridos eletronicamente os despejos, as cobranças, os inventários, as cautelares, as pensões alimentícias, os benefícios previdenciários, os alvarás, as indenizações (aqui ainda poderão fazer um projeto de lei para cada tipo de situação: erros médicos, acidentes de veículos, construções defeituosas, protestos indevidos, o que mais a imaginação permitir...).

Leis já existem em demasia neste país. O problema de informatização do processo é, antes de tudo, uma questão de aportar-se suficientes verbas e realizar uma gestão eficiente.

Opino pela rejeição!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Os riscos da auto-exposição

Tenho dito com frequência, e já escrevi aqui no blog, que tenho certo desprezo por este tipo de relacionamento social que as pessoas têm travado pela Internet, que transformou sua vida privada - quando não íntima - em fato público. Notícia publicada recentemente informa que criminosos estariam utilizando essas informações escancaradamente disponíveis para encontrar e estudar suas potenciais vítimas.

Não era mesmo de se esperar outra coisa. Não entendo que utilidade há em deixar disponível ao público em geral informações do dia-a-dia de pessoas "normais", recadinhos entre amigos e similares. Sem dúvida, se há alguém que pode se interessar por isso, além dos interlocutores e de um restrito círculo de amizades, são os criminosos.

Acho que é desnecessário maiores comentários: a leitura da matéria citada fala por si... É difícil defender a proteção à privacidade, tema que considero da maior importância para a sociedade atual, se massas volumosas de pessoas, mesmo instruídas e com acesso à Internet, não lhe dão a menor importância.

sábado, 29 de agosto de 2009

Meu escritório embaixo da árvore - 2


Já tratei da mobilidade em mensagem anterior, cujo título reproduzo novamente aqui. A cada vez que saio de férias, o tema me chama ainda mais a atenção. Quando será que conseguirei trabalhar sob a gostosa sombra de uma árvore? Como essa, no Parque do Caracol, em Canela (RS)?

Mal cheguei de férias, e uma notícia menciona o possível nascimento de uma nova geração de aparelhos, que estão sendo apelidados com a autoexplicativa palavra smartbook, uma fusão de smartphone com notebook.

Cada vez mais, está ocorrendo uma convergência destes aparelhos eletrônicos todos, que podem ser considerados verdadeiros computadores de uso geral.

Há alguns meses, estou me divertindo com um Internet Tablet N810, da Nokia, comprado no intuito de substituir, como agenda, o Palm TX que eu utilizava. O N810 é gerenciado por um sistema operacional Linux e, com algum "do it yourself", necessário para garimpar na rede e instalar alguns aplicativos mais, transforma-se praticamente em um computador "de verdade", com 200g de peso e que cabe no bolso do paletó. De tudo que pode ser instalado como extra, destaco, sob o ângulo profissional, o Open Office, a conhecida suíte de escritórios livre. A versão instalada no N810 é completa; não se trata, portanto, daqueles aplicativos para Palm, ou para celulares, que apenas abrem em formato nativo os arquivos de programas para desktop, mas trazem apenas um mero punhado de opções. O acesso à Internet pelo browser padrão, que veio pré-instalado, também é uma boa experiência: a tela tem 800 pixels de largura e um browser completo é capaz de ver as páginas da web em seu formato normal.

Levei o Tablet na minha última viagem de férias e, tendo algumas pendências profissionais para resolver durante aquele período, escrevi alguns textos no Open Office do N810, usando o pequeno teclado deslizante, e os remeti para o escritório. É utilizável! Escreve-se com os dois polegares e não se tem, claro, o mesmo conforto ou agilidade de escrever com dez dedos num teclado de desktop... mas, não creio que esse quesito seja esperado por quem carrega o computador no bolso. Como um plus, o N810 ainda substitui um GPS, o que é bem útil em viagens, e um outro aplicativo instalado me oferecia a previsão do tempo nos locais por que passei, a partir de serviços de meteorologia online. Divertido, realmente!

Ao chegar de viagem, encontro no escritório um aparelho E75, emprestado pela Nokia para um "test-drive" de uma semana. Este é um celular recém-lançado, com sistema Symbian, dotado de um teclado deslizante tão usável quanto o do N810. Para uso profissional ou corporativo, que é seu foco, pareceu-me atraente; quase compete com o N810, exceto pelas possibilidades deste decorrentes do sistema Linux e de sua enorme gama de aplicativos instaláveis, semelhantes aos que uso no meu computador de mesa. Caso lhes interesse, publiquei reviews dos dois aparelhos, contando minhas experiências, em um fórum tecnológico de que participo: sobre o N810 e sobre o E75.

Enfim, os equipamentos móveis estão evoluindo com muita rapidez e gerando um potencial interessante, como eu já havia escrito naquela mensagem de janeiro passado. Um detalhe a mais chamou minha atenção durante esta viagem: hotéis, já há um bom tempo, costumam oferecer acesso à Internet; mas surpreendeu-me saber que até uma hospitaleira pousada familiar, em São Joaquim, pequena e simpática cidade da serra Catarinense, já oferece serviço de wi-fi gratuito para seus hóspedes.

Acho que meu escritório embaixo da árvore já está disponível! Só falta aguardar que o Judiciário nacional implemente uma informatização verdadeiramente operante...

sábado, 8 de agosto de 2009

Eleições por celular? Socorro!

Já não somos mais os "campeões" da tecnologia eleitoral. Notícia divulgada na Folha Online informa que a Rússia, esta conhecida baluarte da democracia, está preparando eleições pelo celular.

Segundo divulgado pela Folha Online, "o sistema funciona, contamos com os equipamentos técnicos necessários e agora estamos afinando os aspectos jurídicos", explicou Gennady Raikov, membro da CEC responsável pela votação eletrônica. Sim... é claro que funciona! Mais um país está conseguindo ensinar computadores modernos a somar um mais um.... e agora à distância! Não é in-crí-vel?

Tentei uma busca pela Internet e não encontrei maiores informações. Gostaria de saber mais detalhes técnicos desta má idéia, para poder tirar minhas próprias conclusões sobre se o sistema realmente "funciona". E como funciona, que é o que parece ser mais essencial, porque somar um mais um e encontrar dois é algo que tenho absoluta certeza de que funcionará, ao menos nas demonstrações públicas... Curiosamente, acabei descobrindo que a Rússia não é pioneira nesta "altíssima" tecnologia para celulares. A Estônia foi o primeiro país no mundo a aprovar uma lei prevendo votação por aparelhos móveis, e utilizará esta "incrível" tecnologia em 2011. A notícia foi publicada, sem nenhum senso crítico, em alguns websites voltados para tecnologia móvel, como o Gizmodo ou o Engadget.

Qual o problema em votar pela Internet, ou pelo celular? Tecnologicamente falando, realmente não há nenhuma dificuldade. Dá para fazer coisas muitíssimo mais complexas pelo computador, pela Internet, ou com celulares, do que somar um mais um em um computador remotamente conectado. Fico realmente impressionado é em ver como a população média fica "encantada" com bobagens simplistas como essas.

Mesmo do ângulo puramente tecnológico, há um "pequeno" problema aqui, certamente minimizado pelos tecnoburocratas: não há como votar à distância se o voto não for identificado! Para que não se vote duas vezes, alguma maneira de identificação do voto do eleitor tem que ser implantada num modelo desses. Aparentemente, o voto será assinado digitalmente ou algo semelhante, para assegurar a existência de um único voto por eleitor remoto. O sigilo do voto acabou!

Mas há também o problema político e humano. A única maneira - ÚNICA, é bom falar alto! - de assegurar a liberdade de votar em quem o eleitor quiser é deixá-lo a sós na cabine de votação. Infelizmente, sair de casa para votar num local específico para isso, embora possa parecer antiquado e entediante, é o preço da manutenção de uma verdadeira Democracia.

Como assegurar liberdade ao eleitor, se não sei em quais condições, ou em que lugar, ou na companhia de quem (especialmente isso!) o eleitor se encontra no momento em que envia seu voto remotamente? Não posso dizer nada da realidade política e social da remota e gelada Estônia... mas conheço bem o meu país tropical: votação remota, aqui, significaria a vitória triunfante do voto de cabresto! E pela primeira vez na história política nacional, o cabo-eleitoral-comprador-de-votos vai poder ter a absoluta certeza de que o eleitor-vendedor realmente votou no seu "chefe". Se quiserem, podem substituir as expressões "comprador"/"vendedor" por "coator"/"coagido"...

Socorro!

domingo, 26 de julho de 2009

Qual a tecnologia envolvida na Urna Eletrônica?

Em mensagem anterior, dedicada ao uso da Internet nas eleições, abri o texto com um comentário marginal, em que chamei de "monstrengos" alguns supostos avanços tecnológicos nacionais do setor público. Lembro-me que a palavra foi usada por meu saudoso Mestre Goffredo para designar o AI-5, durante um ato público realizado no apagar das luzes da ditadura. Disse ele que o AI-5 era um "monstrengo jurídico". Pois agora estamos criando e cultivando monstrengos tecnológicos.

Um dos (talvez poucos, ainda) leitores deste novo blog deixou-me comentário, já publicado, dizendo que minhas palavras seriam uma "depreciação de trabalhos feitos por brasileiros altamente competentes" e que o objeto de minha rápida observação seriam "projetos mundialmente reconhecidos".

Bem... vamos por partes. E aos poucos, porque estou de férias! Falemos, por ora, da urna.

Qual foi o reconhecimento mundial de nossa urna eletrônica? Será que perdi esta notícia?

Esta simples explicação da urna eletrônica não é minha, mas já não me lembro de quem a ouvi. Mas como é muito boa, simples de ser compreendida até por quem nada entende de Informática, eu a tenho repetido toda vez que falo no assunto. A urna é um sistema informático capaz de somar um mais um, até o máximo de quinhentos, durante dez horas. Ora, qualquer um faz um sistema assim. Não há nada de inovador nisso. É um sistema com input pelo teclado e um contador que acumula numa base de dados bastante simples. Programar um website de comércio eletrônico deveria ser mais complexo do que isso.

O curioso é que a massa da população brasileira, que defende a urna como se fosse a Seleção, não repara que, passados mais de dez anos, em um mundo de altíssima competitividade tecnológica, ninguém mais repetiu o "feito". EUA, Alemanha, Japão, para citar apenas três, ainda não conseguiram ensinar um computador de algumas centenas de megahertz de clock a somar um mais um até quinhentos...

Deixando a ironia de lado, outros países ainda não repetiram esta nossa "façanha tecnológica" porque não conseguiram criar uma urna eletrônica auditável. Trata-se na verdade de um problema conceitual: ao que tudo indica, é impossível realizar uma eleição secreta de modo satisfatoriamente auditável e que seja totalmente eletrônica. E digo "auditável", aqui, segundo padrões democráticos.

A propósito, nós brasileiros também não conseguimos descobrir a fórmula da eleição totalmente eletrônica E democraticamente auditável... mas puseram em uso mesmo assim... Por enquanto, ela só é totalmente eletrônica, porém inauditável.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A vexatória lista da PGFN

É estarrecedora a notícia de que a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional divulgou em seu site o nome de 1,034 milhão de devedores, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, inscritos na Dívida Ativa da União e com cobrança judicial.

Não há justificativa lícita para essa divulgação. A Inscrição em Dívida Ativa já é suficiente para assegurar certeza e liquidez aos créditos da União. Já agrega, além disso, um ônus enorme ao contribuinte, pela conseqüente inscrição no CADIN, cadastro de devedores da União, a vedá-lo de contratar com órgãos públicos, firmar convênios, obter financiamentos, etc. Ademais, a propositura de demanda judicial de cobrança já torna pública a situação do contribuinte, posto que os sites dos Tribunais Federais permitem consultas sobre processos em andamento na Justiça Federal, embora, nesse caso, a realidade seja completamente diversa, quer porque as informações são esparsas, e não coligidas em uma única base de dados, quer porque representam demandas judiciais, e não mera declaração de um pretenso credor, expondo o nome de um devedor, quer ainda porque a informação seja completa, inclusive quanto a defesas que o contribuinte tenha apresentado, ou recursos que eventualmente tenha interpostos.

Se assim é, a divulgação da lista de devedores só pode ser vista como medida de verdadeiro constrangimento ao contribuinte, dando-lhe punição adicional e vexatória, a fazer com que todos saibam a situação em que se encontra.

Enquanto os países adotam medidas de controle de fluxo de dados transnacionais de seus cidadãos, como o acordo feito entre a Comunidade Européia e os EUA (Safe Harbor Agreement), controlando os dados pessoais de cidadãos europeus transferidos para o território norte-americano, o nosso Governo faz exatamente o oposto, ou seja, promove a divulgação de informações negativas sobre os brasileiros.

No âmbito interno, tempos atrás, alguns credores se valiam de banda vestida de vermelho, na porta do devedor, para constrangê-lo. O que faz a PGFN é muito pior, pois não apenas os vizinhos do devedor, mas todo mundo, reitere-se, TODO MUNDO, poderá xeretar a malfadada lista, a ver se conhece alguém com o nome nela inscrito.

Sequer é possível saber as efetivas conseqüências da divulgação dessas informações, posto que, depois de expostas na internet, não será mais possível controlá-las, já que numerosos outros sites poderão passar também a deter essas informações, por razões que só a imaginação poderá prever.

Marcos da Costa

Vigilância digital sobre as empresas

A Folha de São Paulo de hoje (06.07.2009), no Caderno Dinheiro, publica matéria "Fisco amplia vigilância digital sobre as empresas" informando que, das 8.200 empresas que estavam obrigadas, 87% já instalaram o sistema da Receita Federal denominado SPED (Sistema Público de Escrituração Digital), composto por três módulos: o Sped Contábil, o Sped Fiscal e a Nota Fiscal Eletrônica.

Tenho sérias dúvidas se medidas como essa, impostas pelo Governo, seriam recebidas de forma tão pacífica pela sociedade, especialmente em países com maior tradição democrática, ou que tenham passado por experiências com resultados catastróficos com o uso indevido da tecnologia pelo Poder Público.

Para começar, a implantação desses sistemas, que sempre visam facilitar a vida dos Governos, tem custos que invariavelmente são transferidos para os cidadãos e as empresas. No caso do sistema Sped, diz a matéria da Folha: “As despesas de implantação do Sped variam muito. Podem custar entre R$ 100 mil e R$ 800 mil, mas há quem tenha gasto até R$ 20 milhões por estar em grande defasagem tecnológica, de acordo com a Ernst & Young”.

O problema, porém, é ainda mais relevante. Ainda eu não houvesse custo algum, a mera instalação de sistema de informática, cedido pelo Governo, em meu computador, já me deixaria preocupado. Não sei se são compatíveis com meu sistema operacional, ou com aplicativos que eu mantenho em meu computador. Não sei sequer se não trazem embutidos erros de programação, que possam causar danos ao meu equipamento e aos dados nele gravados.

Mais preocupante é o fato desses sistemas do Governo, em regra, não terem seus códigos-fonte abertos, impedindo que a comunidade científica brasileira possa pesquisar se tem códigos ocultos, que possam extrair de meu equipamento informações confidenciais.

Só essas preocupações já seriam suficientes para que a sociedade pudesse discutir a obrigatoriedade de instalar aqueles sistemas.

Porém, mesmo que tudo isso pudesse ser superado, restariam ainda as preocupações legítimas sobre o que a Receita Federal fará com os dados das empresas. A própria Folha de São Paulo adverte que “na prática, as companhias passam a ser muito mais vigiadas”. Com a capacidade de processamento de informações dos atuais parques tecnológicos, aliada à troca de dados cada vez mais intensa entre Governos (Federal, Estaduais e Municipais) e seus respectivos órgãos é difícil imaginar o nível de vigilância que será possível ao Poder Público, sobre atos de cidadãos e de empresas.

Há, ainda, a questão da responsabilidade sobre a guarda desses dados, sobre a qual invariavelmente se omite o Governo. Lembrem-se de que CD´s com a íntegra das declarações de Imposto de Renda eram vendidos na Praça da Sé em São Paulo, e que recentemente foi fechado pela Polícia um site que vendia informações pessoais de qualquer cidadão. E de onde, quem vendia essas informações, as obteve?

Marcos da Costa